Minhas impressões sobre o livro “Race Against the Machine”: como relacionar a Lei de Moore e o tabuleiro de Xadrez

Acabei de ler o livro “Race Against the Machine” (2011) de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee que analisa as conseqüências do desenvolvimento tecnológico sobre a economia e a sociedade. Os autores são pesquisadores do MIT.

No capítulo 2 – “Humanity and Technology on the Second Half of Chessboard” os autores fazem um paralelo interessante entre a Lei de Moore e uma antiga história sobre a origem do jogo de Xadrez.

Gordon Moore foi um dos fundadores da empresa Intel, um dos maiores fabricantes de circuitos integrados do mundo e em 1965, escreveu um artigo “Cramming more components onto integrated circuits” em que concluía que a quantidade de transistores num circuito integrado de mínimo custo dobrava a cada ano. Isso significava que o poder de processamento dos computadores a cada ano dobrava pelo mesmo custo investido. Mais tarde, essa lei foi corrigida para dobrar a cada 18 meses e não um ano e se mantém válida nos dias de hoje. Não é propriamente uma lei no sentido matemático, mas evidencia um fato que se mantém desde a década de 60.

Do jogo de xadrez, muitos já conhecem essa versão da história onde um imperador muito satisfeito com o novo jogo quer recompensar o inventor e permite que escolha o seu prêmio. O inventor prefere receber uma quantidade de grãos de arroz cujo valor total seria a soma de 64 parcelas determinadas em função das posições das casas do tabuleiro de xadrez, assim distribuídas: 1 grão na primeira casa; na segunda casa, o dobro de grãos da primeira; na terceira casa, novamente, o dobro de grãos da segunda casa, e assim sucessivamente. Não é difícil de perceber que a soma dessa sequência de quantidade de grãos,

1+2+4+ 8+ …+ 263

é a soma de uma PG (Progressão Geométrica) de razão 2 e cujo valor total será

264 – 1

O imperador julgou que era uma proposta razoável e aceitou essa forma de premiação, sem se dar conta que essa quantidade de grãos de arroz, 264 – 1, seria o resultado de toda a colheita de arroz somada de muitas gerações!!!

O que o livro acrescenta de novidade é que até a metade do tabuleiro, isto é, até 32a casa, a quantidade de grãos é realmente razoável, aproximadamente 4 bilhões de grãos que seria o equivalente a colheita de um grande terreno. Passando a metade do tabuleiro, os valores crescem exponencialmente e gerando valores absurdos.

Até aí eu ainda não tinha associado direito qual era a relação entre a Lei de Moore e o tabuleiro de xadrez. Como Lei de Moore demonstra a evolução do poder de processamento dos computadores dobrando a cada 18 meses, os autores queriam demonstrar também que esse potencial das máquinas, já está na segunda metade do tabuleiro de xadrez e que a sociedade e a economia de modo geral estão sentindo os efeitos desse fenômeno.

Eles partiram do ano de 1958 quando o “U.S. Bureau of Economy Analysis” incluiu uma nova categoria de investimentos chamando de “Information Technology”, tornando a tecnologia da informação um fundamento econômico importante para as empresas e instituições. Considerando, portanto, 1958 como o início desse processo de evolução das máquinas e considerando que a cada 1,5 anos ou 18 meses seu poder de processamento dobra, então em 2006, as máquinas eram 232 mais poderosas do que aquelas de 1958!

A partir de então, pode-se esperar que a tecnologia criarão máquinas ou sistemas que vão substituir o homem em muitas tarefas consideradas “humanas”, como, por exemplo, os atendentes de call centers. Em atividades industriais já sabemos que a automação e o uso de robôs estão cada vez mais sendo utilizados e substituindo o ser humano no processo.

Dessa forma, as crises econômicas mundiais que estamos vivenciando nos últimos anos, são reflexos desse processo de desenvolvimento tecnológico de mais de 50 anos. A tecnologia vai ajudar a produzir uma quantidade de produtos cada vez maior e mais baratos. A conseqüência disso, é que o número de vagas de trabalho não vão aumentar na mesma proporção.

Como resolver esse problema? O livro indica várias formas de contornar esse problema, mas a mensagem principal que ela traz é que não se deve concorrer com as máquinas e sim sabê-las utilizar cada vez melhor. Segue-se ai o discurso da inovação como uma forma elegante de sair da crise. A geração de novas máquinas, novos serviços etc. Os exemplos estão aí: Facebook, Google, Skype, entre outros que se utilizam da tecnologia para gerar serviços que são gratuitos e que, por isso mesmo, agregam uma quantidade enorme de pessoas, formando uma rede social. Do ponto de vista de mercado, é uma forma inteligente de agregar potenciais clientes num único lugar, gerando riqueza a partir daí. Isso é inovação !! Quem pensaria num negócio que fornece serviços gratuitos poderia gerar riqueza há 100 anos?

Tem outras medidas que os autores citam no livro, alguns deles entendo como quebra de tabus, como a extinção da estabilidade nos empregos (o livro cita, como exmplo, a classe dos professores). No fundo, seguem a lógica neoliberal de premiar a meritocracia e liberdade nos negócios.

Há severas críticas ao sistema educacional americano no que se refere a forma como as aulas são dadas pelos professores que não utilizam a tecnologia. Isso é justificado pelo que já disse antes, não adianta concorrer com a tecnologia, precisamos é saber usá-la cada vez mais e melhor.

Em muitos pontos eu concordo com os autores, mas em vários momentos, dá impressão  nítida que a educação só serve para garantir uma mão de obra qualificada que ajudem as empresas e instituições a manter seu status quo.

Esse texto não teve como objetivo ser uma resenha crítica ao livro, quis apenas focar a relação que os autores fizeram com a Lei de Moore e o tabuleiro de xadrez do ponto de vista matemático e relacioná-las com o atual situação econômica e social que vivemos.

Para os interessados em ler o livro, ele pode ser adquirido na versão eletrônica no site da Amazon no Brasil (www.amazon.com.br) e custa a bagatela de R$ 8,32 (20/12/2012) !!! Apesar de ser no formato para o Kindle (Leitor eletrônico da Amazon), pode ser lido em outros leitores eletrônicos, computadores, Smartphones etc, via programas que podem ser baixados gratuitamente no site da Amazon.

Por enquanto, não tenho notícia de alguma tradução para o português.

É isso ! Abraços a todos !

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