Resenha do filme: “Donald no País da Matemágica” (no original em inglês Donald in Mathmagic Land).

Nos anos 50, os Estados Unidos e a ex-União Soviética, formavam as duas maiores potências do mundo e brigavam no campo político, científico, social, cultural e até mesmo esportivo pela supremacia mundial. Este jogo cheio de mistérios, intrigas e discussões acalouradas, deu-se o nome de Guerra Fria e como consequência, o mundo dividiu-se em dois pólos diametralmente opostos.

Nessa época, o governo americano tinha uma política de aproximação com países que poderiam ser assediados pelos soviéticos e o Brasil mereceu uma atenção importante. O famoso desenhista Walt Disney veio ao Brasil no fim dos anos 40 para colher informações a respeito da cultura local com a intenção de desenvolver novas idéias para a produção de desenhos animados. Dessa viagem, nasceu o Zé Carioca e o filme “Alô amigos” (1942) e com o Pato Donald em “Você já foi a Bahia” (1944).

Além desse assédio por parte dos americanos de implementar uma politica de boa vizinhança com países “amigos”, as duas potências também brigavam pela hegemonia no campo das ciências e tecnologias. A corrida armamentista e sobretudo a corrida espacial são exemplos dessa guerra.

No campo da matemática, porém, a União Soviética era tida como o país onde ela melhor se desenvolvia e foi uma das razões para que tomasse a dianteira na corrida espacial. Por esta razão que o ensino da matemática nos Estados Unidos sofreu profundas mudanças e deu início ao movimento conhecido como “Matemática Moderna” que também repercutiu fortemente no Brasil no final dos anos 50.

Nesse clima de Guerra Fria pela supremacia mundial, os Estúdios Walt Disney, produzem o filme “Donald no país da Matemágica” (1959), um desenho animado de 27 minutos, onde o Pato Donald é apresentado à Matemática e fica maravilhado com os encantos e possibilidades dessa nobre Rainha das Ciências.

O desenho era uma forma de expor ao grande público um assunto complicado e difícil de agradar. Afinal, os americanos estavam perdendo a corrida espacial e precisavam de cientistas e engenheiros que conhecessem bem a Matemática. Não tenho estatísticas que demonstrem que o projeto deu certo, mas o resultado é um desenho animado bem feito e que poderia, num primeiro momento, mostrar que a Matemática não seria um bicho tão feio assim ! Apesar das dúvidas, é fato que os Estados Unidos chegaram à Lua na frente dos soviéticos, embora o cérebro por trás do projeto das naves Apolo, era alemão – Wernher von Braun.

No desenho animado, Donald é levado a uma floresta muito diferente com árvores em formas de figuras geométricas, passáros com bico com forma de lápis e corpo de esquadro, coruja composto de triângulo, círcunferência e retângulo, recitando o número , etc. , etc. Aliás nessa última passagem, segundo o Wikipédia e, depois conferido ao assistir novamente o desenho, essa coruja diz que o número = 3,14159265358974 etc., etc., mas na verdade, até essa precisão o número correto é 3,14159265358979.

Antes de continuar é bom ressaltar que se o desenho tivesse criado hoje, a figura do caçador empunhando uma arma, não seria um personagem politicamente correto, mas na visão dos anos 50 não era visto dessa forma. Lembro de muitos filmes de época que retratavam os caçadores como heróis e não vilões.

Donald é ciceroneado por uma voz que não sabemos a sua origem, mas se diz ser o “verdadeiro espírito da aventura” que desenvolve um roteiro de viagem onde as coisas matemáticas são belas, atraentes e que explicam de forma harmoniosa a própria natureza. Sabe-se, no entanto, que o trabalho de um matemático não é simples e nem o ofício de ensinar matemática e sempre agradável e sem percalços. Tornar a matemática simples, não é uma tarefa fácil!

Voltando ao desenho, Donald é levado a Grécia antiga e é apresentado a Pitágoras que mostra como a matemática foi importante para o desenvolvimento da música e dos instrumentos musicais. Na cena, Donald vê uma corda com um certo comprimento que quando esticada e depois puxada, ouve-se um som. Na sequência, mostra que quando essa corda é dividida ao meio, o som produzido representa uma oitava daquele ouvido com o corda toda. Mas, se a corda é dividida ao meio por que resulta num som uma oitava acima ou abaixo do original? Não deveria ser meio, já que dividimos a corda pela metade. De onde veio a oitava?? Para os que não entendem de música, como eu, é uma questão pertinente, mas entendo também que para o objetivo do desenho animado, isso não tem a mínima importância. Cabe ao professor discutir isso com os alunos, se o filme estiver sendo apresentado a eles.

Pitágoras e seus seguidores intelectuais formavam uma fraternidade, os Pitagóricos, que se reuniam secretamente para mostrar suas descobertas. Sendo assim, quando Donald diz, a certa altura, que matemática é para intelectuais, ele diz a verdade. Nesse momento,  voz do “espírito da aventura” muda a conversa e associa matemática à música. Se a Matemática pode ser lúdica, porque os Pitagóricos se escondiam e discutiam somente entre eles suas descobertas matemáticas? O fato é que até hoje, os matemáticos ainda formam no imaginário da maioria das pessoas uma fraternidade, uma elite pensante ou simplesmente, gente estranha!

Passado a música, o “Verdadeiro Espírito da Aventura” apresenta ao Pato Donald a famosa Regra de Ouro ou a Razão Áurea como uma das descobertas mais fascinantes dos gregos e um legado para os arquitetos, escultores, pintores e até mesmo aos engenheiros e biólogos. Em seguida, uma série de exemplos onde aparece a Regra de Ouro, nas obras de arte, na natureza e no corpo humano.

Alguém mais curioso do que admirado deverá perguntar, qual o valor da razão áurea? Ou, como determinamos os retângulos com as medidas proporcionais à razão áurea? Não é dito e nem sequer dá pistas sobre como determiná-la. Como os Pitagóricos concordavam que a Matemática regia o universo, quem conhecê-la e dominá-la tem o poder dos Deuses. Não é à toa que formavam uma fraternidade secreta.

Da razão áurea, passamos aos jogos. Há uma referência a Lewis Caroll, matemático e escritor de livros como o clássico “Alice no País das Maravilhas”. No tabuleiro de xadrez aparecem as formas matemáticas, além disso, diz-se que há matemática também nos movimentos das peças de xadrez. Na verdade, os movimentos são determinados pelas regras do jogo e pela estratégia do jogador que utiliza muito mais a lógica do que a geometria, muito embora, possamos tratar o estudo da Lógica como um ramo da Matemática.

No desenho são mostrados outros jogos, alguns poucos conhecidos pelos brasileiros como o Futebol americano e o Basebol, justificando a Matemática na geometria da quadra ou campo e nas linhas que delimitam estes espaços. A Matemática aparece de maneira mais enfática quando apresenta o jogo de Bilhar. Temos nesse caso, um jogador, aparentemente profissional ensinando ao Donald como jogar, baseando-se em regras matemáticas simples para fazer uma tacada. São regras práticas, sem demonstração. Isso pode ser válido como um desenho animado que não tem a intenção de apresentar uma Matemática rigorosa, mas numa sala de aula, pode ser tão importante como essencial.

De todos os jogos, o desenho mostra que o mais importante deles acontece nas nossas mentes. Para isso,  precisa estar ordenada e livre de conceitos e idéias antiquadas e superstições. Portanto é preciso limpar a casa (mente) para entender como a Matemática pode ajudar a desenvolver novos conhecimentos e novas tecnologias. Seguem-se exemplos de círculos, elipses, cones e outros objetos geométricos que ajudam a construir microscópios, telescópios, engrenagens, locomotivas, aviões e explicam o movimentos dos planetas.

No final há um discurso onde se diz que a chave do futuro está na Matemática e finaliza com uma frase dita por Galileu – “A Matemática é o alfabeto como o qual Deus escreveu o Universo!”.

Esse filme demonstra a preocupação dos americanos em formar matemáticos para alcançar a hegemonia científica nos anos 50 e 60, pois sabiam que essa honraria não com eles. Essa preocupação foi tão intensa que promoveu uma nova abordagem no ensino da Matemática com conseqüências marcantes até os nossos dias.

Não tenho dados que possam justificar se os objetivos foram alcançados nos Estados Unidos, mas pertenço a uma geração onde essas idéias introduzidas no Brasil foram aplicadas nas salas de aulas e a Matemática que me foi apresentada em nada se parece com aquela mostrada no filme. 50 anos depois, sabemos que o mundo mudou, a Guerra Fria não existe mais, a Matemática expandiu suas fronteiras e, apesar disso, a Matemática nas escolas ainda é mesma. Nenhum glamour, insípida e sequer divertida.

Donald descobriu a graça e o poder da Matemática porque tudo se resumia num desenho animado. Fazer Matemática, como qualquer outra atividade humana, é necessário dedicação, esforço e paciência.

P.S.: Esta resenha foi uma atividade na disciplina “Comunicação e Linguagem 1” proposta pela Profª Eliana Maria R. Ferreira, no curso de Licenciatura em Matemática do IFSP – 10/Maio/2011.

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9 Comentários

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9 Respostas para “Resenha do filme: “Donald no País da Matemágica” (no original em inglês Donald in Mathmagic Land).

  1. Nossa isso me ajudo muito na trabalho da escola valeu msm *-*

  2. gaby

    que ajuda em ?! Meu trabalho de geometria ficou otimo !!

  3. marcos

    isso irá me ajudar no trabalho de engenharia,onde engloba a disciplina matemática

  4. Maria

    Gostei do vídeo é muito legal, criativo e educativo!
    Me ajudou muito no trabalho!

  5. liny

    esse video me ajudou muito no meu trabalho

  6. lucas cordeiro

    nao me audou nada

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